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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Marina De La Riva - São Carlos - 06/05/09


Ocorreu no SESC São Carlos na última quarta-feira (06/05) o show da cantora Marina de la Riva, promovido pelo interessante Projeto Contribuinte da Cultura (FAI-UFSCar) em comemoração aos seus 10 anos, o projeto é responsável por grande parte dos eventos culturais ocorridos na cidade.

Marina de la Riva apesar de brasileira considera-se “meio brasileira e meio cubana”. De pai cubano, refugiado do regime ditatorial na época em ascensão de Fidel Castro, e mãe brasileira, Marina sofreu influência direta dessas riquezas culturais. Seu pai Fernando tocava violão, e colocou Marina em contato com a tradição musical da ilha caribenha. Sua mãe tocava piano, ouvia-se em casa boleros e sambas-canções, ópera e bossa-nova. Apesar de tudo, a decisão pela música veio um pouco mais tarde, De la Riva chegou até a se formar em direito. Em 2004, viajou até Cuba para gravar seu disco de estréia. Era a primeira vez que a cantora visitava a terra de seu pai e de seu avô. Gravou um repertório de clássicos cubanos, acompanhada por músicos locais. De volta ao Brasil, Marina gravou sambas e marchas do início do século passado. O cd saiu em 2007 e foi muito bem aceito pelo crítica.

Começa o show. Central Constancia. A iluminação contornava os gestos e a presença desta cantora tão verdadeira, feminina e natural. Um sonho. A realidade só veio ao cair um cowbell que escorregou de sua mão, poucos segundos de Terra num show que foi só Céu. Exagero? O Teatro estava lotado, todos cantaram e se emocionaram com a presença de palco, a voz e a interpretação da cantora. Intimista, o show foi tecido pelo primeiro cd inteiro e algumas músicas além. De Dona Ivone Lara (“Sonho Meu”) e Maysa (“Meu Mundo Caiu”) até Ernesto Lecuona (“Mariposa”) e Chano Pozo (“Tin Tin deo”). Marina fez a platéia sentir uma proximidade entre Rio de Janeiro e Cuba, era como se avistássemos do Rio as ilhas Cubanas. Uma fronteira musicalmente possível.

A banda, que correspondeu a altura, foi composta por: Fábio Sá(baixo), Jorge Ceruto(trompete), Felipe Maia(Teclados e Acordeon), Pedro Bandera(percussão), Ricardo Valverde(Percussão) e Daniel Oliva (guitarra).

"O artista é nulo se não tem o coração em contraponto." Só frases assim poderiam entremear músicas tão belas e delicadas, e assim De la Riva fazia, mesmo que no improviso. Quem assistiu, se inteiro, as carregou como marca indelével em si mesmo. Recomendo a todos que escutem o cd, e se ao alcance, corram ao show. Cuba é logo ali, do lado do Rio.

Rodrigo M. Biondo

quinta-feira, 5 de junho de 2008

João Bosco - SESC São Carlos - 22/05

João Bosco em São Carlos. Nosso Trio em São Carlos. Agora junte os dois: mais uma obra prima do SESC – São Carlos. Parabéns! O show foi excepcional, ímpar.

Tocando músicas repletas de um toque característico, acompanhado por Kiko Freitas na bateria, Nelson Faria na guitarra e Ney Conceição no baixo, o mineiro de Ponte Nova reflete suas influências de jazz, bossa nova, samba, tropicalismo entre outros, em um repertório composto por composições de parcerias com Capinam(“Papel Machê”), Abel Silva(“Desenho de Giz”), Aldir Blanc(“Escadas da Penha”, “O Bêbado e o Equilibrista”), fora músicas como “Corsário”, “Jade”, “Linha de Passe”, “Coisa Feita” etc. Só coisa fina, diriam os fãs de Moacir Santos. E vale lembrar, nem precisava, mas João Bosco ainda nos presenteou com Tom Jobim(“Lígia” e “Inútil Paisagem”) e Gilberto Gil(“A Paz”).

O engenheiro João Bosco de Freitas Mucci ganhou seu primeiro violão aos 12 anos e montou seu primeiro conjunto de ROCK'N ROLL, o “X_GARE”. Em 1967 a universidade de Vila Rica das Minas - Outro Preto - ganhou-o como aluno do curso de Engenharia Civil. “Passei pela terra de Aleijadinho e meu coração que até então era vadio, ficou barroco. Subi e desci ladeiras. Descobri que na vida existem mais teoremas. Supor é melhor que demonstrar e na dúvida mora a vontade de continuar.” - João Bosco; o ano de sessenta e sete também foi marcado pelo início da parceria com o “poetinha” - Vinícius de Moraes, e em 1970 é a vez de Aldir Blanc. No ano de 1972, além de receber o diploma de Engenheiro Civil, sai o Disco de Bolso, projeto de O Pasquim – ao lado do compositor Sérgio Ricardo, e conheceu também Elis Regina – NOSSA!! - com quem gravou “Bala com Bala” (Bosco/Blanc).

A genialidade do compositor foge às coisas simplistas de teorias, essas ensinadas em centros de educação musical, universidades, conservatórios. Como vínculo à terra, à natureza particular pontenovense, também cultiva em sua música, e faz questão disso, suas experiências de vida. Experiências que passam por sua história de amores, bares e amigos, momentos íntimos com o violão e, com muita força, a face dos terreiros de Candomblé.

João Bosco, por João, por músico(compositor, intérprete), por intelecto, por caricato, se tornou um ás brasileiro. De acordo com Tom Jobim:”Esse mineirinho é bom demais. Tira ele do meu lado”, logo após lançamento do disquinho, cujo lado A era agraciado com tal opinião do maestro brasileiro e o lado B com “Aguas de Março”.

Zuza Homem de Mello cita, com excelência, “O batuque que levava o ouvinte de roldão, já vinha matando na cabeça, começava e acabava atropelando, num jogo rítmico de deslocamentos...seria a base de outra linha da ação na obra do mineiro de olhar perscutador que arrebentava tocando violão. A destreza lhe permitia chegar aonde queria quando partia para esse tipo de composição, o samba rasgado, do tipo desenhado em Tiroteio, que acabou sendo lavrado com o título de Bala com Bala”.

Um ideal dessa magnitude não enferrujará com o tempo. Suas unhas não só tocaram as cordas cristais de violões mas arranharam a nossa cultura de forma tão profunda que foge aos domínios midiáticos, multiplicando por si só, por beleza, por mérito e admiração de tantos outros grandes brasileiros.


“O amor é meu dia de folga. Meu melhor trabalho é a minha família, minha alegria é Rubro-Negra. Quem sabe de mim é o meu violão. Nesse fim de semana, seu não for pra Belô, a gente se cruza no calçadão.” - João Bosco de Freitas Mucci

João H. DOIS